domingo, 7 de março de 2010

Ilha


Não sei há quantos dias estou aqui, nem sei como vim parar aqui. Mas agora respostas são as coisas com as quais eu menos me importo. Sei que meus pés doem e as minhas costas também. Para qualquer direção que eu olhe só vejo o mar me rodeando. Quando fecho os olhos escuto o barulho das ondas, e, às vezes, de algum pássaro. Dificilmente capturo animais para me alimentar. Vivo de frutinhas. Bebo água da chuva. Parece que estou sempre dopado, com uma sensação de desmaio que nunca me abandona e aumenta quando o sol forte incide na areia. Tenho apenas um sapato do par. No outro pé enrolei um pano velho. Cada dia caminho menos, e a cada dia afundo mais na areia. Com as pernas estendidas e as mãos para trás apoiando meu corpo, eu fico pensando e a imagem das coisas vai ficando turva, parece que tudo aquilo não passa de uma ilusão de óptica. Como se estas palmeiras, estas folhas, esta imensidão de areia, tudo isto, fosse um sonho ruim.

Fico tanto tempo sem nada dizer que tenho até medo de não conseguir mais falar. Quando eu era criança, achava que ficar por um longo período num quarto escuro me deixaria cego. Eu tinha de me certificar: abria os olhos e procurava algum ponto luminoso. Era um alívio saber que ainda podia enxergar. Aqui, o que eu enxergo é o que me cega, e não falo apenas do sol. Meus lábios rachados, feridos, partiram-se como se tudo o que eu tivesse para dizer fossem lâminas afiadas. Talvez eu não consiga mais falar, talvez minha língua dê um nó e eu morra asfixiado. Tenho medo. Prefiro não tentar. Apenas pensar nas palavras me contenta e aumenta também uma dor que me rasura inteiramente por dentro. É uma dor tão grande que criei até palavras para descrevê-la, mas não as escreverei aqui, porque já esqueci delas, não pela dor ter passado, mas porque sempre crio novas palavras quando ela dói mais do que o comum.

Os monges são todos uns mentirosos. A única forma de se chegar a um estado de elevação espiritual onde não passe pela nossa cabeça nenhum pensamento é morrendo. E, antes de morrer, a gente pensa muito na morte. Ainda não me perguntei por que estou vivo e por que permaneço vivo. Talvez seja porque morrer me inspira alegria, e meu estado é o de mais profunda tristeza.

O vento passa tão forte pelos meus ouvidos que é como se eu pudesse escutar por um segundo o turbilhão de vozes perdidas da cidade grande. Por um momento acredito que todas as vozes vêm até mim, mas nenhuma chega intacta. Elas vão perdendo substância e o que sobrevive é um fantasma incomunicável.

Não penso no meu passado. Não penso no asfalto enquanto toco a areia. Não penso em comida japonesa enquanto como uma manga. Não penso nas pinturas da sala da minha casa enquanto olho o céu. Não penso na cerâmica gelada do vaso sanitário enquanto procuro uma moita. Eu só penso no que eu não fiz, no que eu tinha vontade de fazer. Penso no filme que saiu de cartaz e não assisti, no filhote de labrador do pet shop que sempre latia quando eu passava e que não comprei, no programa de exercícios que desenvolvi mas que nunca segui, naquele disco velho que tocava no brechó da esquina. Quem era mesmo que cantava? Penso muito nessas coisas agora intangíveis. Penso em um nível que chego à vertigem, que me dá um suor frio e meus olhos se enchem de lágrimas. Penso muito, principalmente na moça da lanchonete, a Elen. A moça que eu quis pra mim mas não tive coragem de confessar isso a ela. Lembro dos seus cabelos castanhos escuros, dos seus lábios rosados e pequenos, dos seus olhos intensamente pretos, do seu jeito dócil de falar quando me servia um sanduíche. Lembro do seu crachá: Elen. Era bonitinho aquilo, fixado no seu peito: Elen. Refletia a luz fluorescente. Mas tudo entre eu e Elen ficou apenas nos negócios. Por isso eu penso muito. Muito no que eu não fiz.

Agora eu estou fazendo, para não pensar depois. Acho que se eu pudesse fazer tudo o que não fiz, voltaria atrás em relação ao Monge. Não seria necessário morrer para esvaziar minha caixa encefálica. Eu faria tudo, tudo que deixei para trás e me sentiria pleno, como um babaca. Agora estou fazendo, escrevendo neste papel, com esta caneta de hotel. Não quero que pensem que isto é um S.O.S. Não estou pedindo ajuda, só estou fazendo algo por mim, a única coisa que eu ainda posso fazer. Então, se alguém vir isso precipitadamente, eu não existo mais. Virei terra, folha e água. Terra, folha, água e papel. E quando eu estiver guardado numa instante, raro, façam coisas, as coisas de vocês.

Vai garrafa, continua! Ainda tens um rumo a seguir.

sábado, 6 de março de 2010

Abelardo


Uma, duas, três, quatro, cinco. Cinco correntes Abelardo levava no pescoço. Todas fruto da safra de quando ele era cafetão. Bons tempos aqueles, mas, assim como nas máquinas caça-níquéis, quando se está ganhando, há o momento em que se deve parar, senão, pode-se perder tudo. E foi exatamente isso que ele fez. Parar e curtir a vida. Poder relaxar com um drinque na mão sem se preocupar se uma puta adoeceu, se a Lorena quer matar a Cláudia ou se a Flávia prefere trabalhar com o Loyola. Sem mais acordar no meio da noite achando que alguém deseja matá-lo porque uma de suas garotas faz ponto em uma área que já tem dono.

Aos 40, mas com corpo de 30, Abelardo só quer saber do baile de gafieira às sextas e dos ensaios com sua banda de jazz aos domingos. O resto dos dias da semana, ele vai à caça. Vestido com cetim e usando um perfume que irrita os narizes mais sensíveis, checa sua performance em frente ao espelho antes de sair de casa. Para Abelardo, seus trejeitos são sua arma fundamental. Todos os seus movimentos são calculados e fazem parte de um jogo de sedução que começa antes mesmo de ele pôr os pés fora de casa. Tamanha dedicação é o segredo da bonança com o que mais lhe dá prazer: mulheres feias.

E quando digo feias, não são desajeitadas ou mal-tratadas, são cronicamente feias. Mulheres que parecem um arbusto ou vindas de outro planeta. Abelardo já teve muitas mulheres. Feias, bonitas, comestíveis. Ele já provou de todas. Mas foi enjoando gradativamente da maioria, da maioria de beldades que passava por sua mão. Foi aí então que, em resumo, sobrou o que inconscientemente ele mais primava.

Eram as feias, libertinas, que em sua experiência de vida sempre foram as que mais se entregavam. Sempre foram as que iam às estrelas sem necessitar de um anel cravejado de diamantes ou de um carro importado. Essas gozavam de verdade. E tal entrega, plena e singular, fez Abelardo não só amar cada uma dessas mulheres, como também respeitá-las de uma forma inteiramente nova para ele.

A sua veneração pelas feias, quase sempre mal-amadas, o inspirou a escrever sobre elas. Mesmo que de forma superficial, entre aquelas linhas rabiscadas num pequeno livro de anotações, ele tinha a recordação de cada uma. Da Anita, da Alstofa, da Raimunda, da Ofélia, da Margarete, da Zilú, uma velhinha tarada de 66 anos. Da Pauliceia. Ah! e como esquecer a Pauliceia? Aquela mulher marcada pelo tempo, misteriosa e de olhinhos tão pequenos por trás daqueles óculos fundo de garrafa. Abelardo a encontrou num dia sem sol, sentada no chão, chorando como uma louca e com os cabelos crespos desgrenhados. Ele chegou de mansinho, com todo aquele cavalheirismo e ar de quem tem todas as respostas para a vida. Foi aproximando-se, perguntando, observando e conseguiu por fim arrancar a história toda de Pauliceia. Seu marido, um canalha sem proporções, a traía há dez anos e, não contente, bêbado, ainda a espancava como quem bate em um saco de areia. Cansada de tanto sofrimento, Pauliceia lutava para conseguir divorciar-se, mas ele, sobrevivendo do trabalho da mulher, a ameaçava de morte constantemente e ainda prometeu ficar com a guarda dos três filhos do casal, alegando que ela sofria de problemas mentais.

Pauliceia poderia ter pedido a ajuda de um profissional como Abelardo, acostumado com a guerra das ruas e experiente em como dar um belo sumiço em alguém. Mas ela deixou se levar pelos sentimentos. Nada fez para encobrir sua ação equivocada. Simplesmente saiu às ruas com as mãos ensanguentadas, depois de desferir 20 golpes com a tesoura que usava para cortar tecidos, por todo o corpo do marido. Foi naquela situação que Abelardo encontrou Pauliceia lastimando-se por agora saber que não veria os filhos durante muito tempo.

Com um afago, tudo foi se acalmando. As mãos grandes e negras de Abelardo apalpavam Pauliceia e as pontas dos dedos corriam em volta da aureola de seus seios caídos. E então, ela foi convencida a ir a um motel.

Pauliceia percorria a corda bamba que delineava o campo da sanidade e o da loucura, e em todo o tempo que passou com Abelardo, ela foi um misto dos dois. Ele pouco se importava, mas, por via das dúvidas, quando escutou o relato da boa moça que matou o homem mau a sangue frio, tratou logo de tirar a arma da gaveta e pôs do seu lado, como uma garantia de que aquela noite de amor não fosse demais para ele.

Abelardo nunca mais viu Pauliceia, porém, soube que ela estava presa, cumprindo pena por ter assassinado o marido. Neste momento acabava a história dos dois. Em um próximo, começaria outra e outra e outra história envolvendo Abelardo e as mulheres por ele seduzidas. Seria assim até o fim das contas.

Podia parecer uma missão divina ou então a temporada de caça às feias, mas não era nada disso. Era simplesmente o que Abelardo sentia e necessitava para apagar seu fogo. Eram tantas, tantas mulheres – uma em cada noite – que a memória insistia em falhar, mas a de ontem ainda estava fresca, tanto, que lhe umedecia os lábios.

Cíntia, olhos esbugalhados, mãos peludas, testa vincada, braços compridos e grossos, dentes tortos. Abelardo mal conseguiu segurar o que havia por baixo de suas calças quando a viu. Seus lábios umedeceram da mesma maneira que acontece quando agora pensa nela.

Apoiando-se com os ombros em cima da mesa, ela devorava aquele sanduíche enorme, abarrotado de ingredientes que pulavam para fora do pão. Abelardo foi direto e sentou-se bem em frente à Cíntia. Ela, apavorada com aquele estranho que, calado, não parava de olhá-la, tremia, sem saber o que significava aquilo. Abelardo, por sua vez, foi correndo a mão em cima da mesa de mármore, brincando com os dedos, até tocar em Cíntia.

“Será que nós dois poderíamos ir juntos a um local mais reservado?” ele disse. Ao invés de um sim, um não, ou um talvez, Cíntia tossiu. Tossiu como um porco em meio ao abate. Engasgada, sufocada e roxa, ela pedia ajuda com o olhar desesperado. Todos em volta olharam, mas ninguém tomou nenhuma atitude. Exceto Abelardo, que a qualquer custo iria salvar sua futura amante daquela noite. Pôs-se a golpear a robusta mulher até que aquele corpo estranho que a fez engasgar saísse. Depois de muito tentar, lá estava a rodela de tomate que voou pela garganta de Cíntia. O tomate assassino.

Aliviada e feliz por ter sobrevivido ao episódio traumático, Cíntia sentia um enorme sentimento de gratidão a Abelardo. Este, era corroído por um turbilhão de emoções, todas elas tangidas por um tesão arrebatador. Era agora ou nunca. Era a hora de colher a bonança por ter sido um herói.

“Eu quero ter você entre os meus braços, entre os meus lençóis. Eu quero ter você esta noite” disse Abelardo com o olhar mais brega deste mundo, e com o coração mais aberto também.
Sem pestanejar e com lágrimas no canto dos olhos, Cíntia disse que sim, como quando se aceita um pedido de casamento ou então quando se sobe no cavalo do príncipe encantado.
Foram os dois a mais uma noite de amor para Abelardo, a uma exceção para Cíntia. Foram os dois copular como animais ensandecidos. Foram os dois amar como os mais puros gênios da poesia.

Na mesma lanchonete, uma linda e bulímica mulher que comia pratos gordurosos, como todos que eram servidos ali, estava prestes a se dirigir ao banheiro para lançar tudo descarga abaixo, quando ficou pensando no que acabara de ocorrer. Em como Abelardo, aquele homem grande, sedutor, negro, e, provavelmente, bem dotado, tinha agido há pouco.

Ela, uma mulher frígida, que nunca havia se apaixonado ou sentido tesão de verdade por alguém, agora sentia as duas coisas por aquele homem que ali passou. Glória, como era seu nome, sorriu introspectivamente, com a calcinha molhada e já certa de seu êxito em conquistar Abelardo. Bonita e rica, ela podia conseguir qualquer coisa que desejasse, ou pelo menos era assim que pensava. Sobre isso, não podia ser diferente: Abelardo seria seu, custe o que custar.

É manhã. A campainha da casa de Abelardo toca. Estranho, já que ninguém costuma ir até sua casa. Ele vai, desconfiado, atender. Pela vidraça fosca da porta, enxerga com dificuldade algo que parece ser uma silhueta feminina.

Ao abrir a porta, lá estava ela, aquela mulher estranha chamada Glória. Com um chapéu vermelho e um casaco de pele de raposa, ela se apresenta:

“Olá. Meu nome é Glória Alívida."

Abelardo, com sua extensa ficha de conquista, nunca havia visto mulher de tamanha beleza. Sentiu automaticamente enorme asco. Exatamente por isso, ele permaneceu imóvel, colado junto à porta, olhando para os luxuosos sapatos de Glória manchados de lama.

“Você não vai dizer nada?”, falou Glória, irrompendo o silêncio.

Abelardo refletiu por alguns segundos. Pensou em trancar a porta e ligar para a polícia. Sentia medo daquela mulher.

“Eu não estou me sentido confortável para falar, então, agradeceria se a senhorita pudesse ir embora.”

“Mas não, eu não vou embora”. Ela empurrou Abelardo da frente, fechou o guarda-chuva e entrou de uma vez.

“Mas... mas o que você está fazendo, sua maluca?!”, disse Abelardo, ainda desequilibrado do empurrão.

“O que eu estou fazendo? Não se finja de desentendido. Só estou conhecendo a casa do meu futuro marido, do pai dos meus filhos, do meu negro viril, do meu...”

“Escuta aqui, ou você sai agora mesmo, ou eu ligo pra polícia, ouviu bem?”
Ignorando o ultimato de Abelardo, Glória começa a inspecionar a casa:

“Há quanto tempo esta casa não é espanada? Veja só, eu passo meu dedo no corrimão da escada e encontro quilos e mais quilos de poeira...”

Abelardo corre para a saleta, vasculha a primeira gaveta do criado-mudo e retorna com algo nas mãos.

“Você prefere sair por bem ou por mal?”, ele ameaça, com um revólver em punho.

“Isso! É assim que eu gosto, garanhão! Bate em mim, bate! Atira no meu ombro e aprecia meu fluido vital espalhando-se pela tua casa. Eu morro, morro de amor se for preciso.”

Abelardo abaixa a arma e dá alguns passos para trás.

“Eu não te conheço, não sei de onde veio, mas, uma coisa é certa, você está totalmente transtornada! Vou ligar para a polícia e esta situação vai ter de se resolver agora.”

Glória foi escorregando as costas pela parede até cair de vez no chão, e passou a arranhar as unhas em um sofá que estava ao seu lado.

Abelardo ligava para a polícia e Glória conservava um estranho sorriso de prazer. Deleitava-se com a situação, inebriada por aquela obsessão que passou a sentir por Abelardo.

“Muito bem. A polícia vem aí. Espero que te levem pra bem longe daqui.”

Glória calou. Ficou como estava. Virou uma estátua, ao lado dos outros ornamentos, adornando a sala. Com o mesmo sorriso congelado, os olhos estáticos e fulgurantes, ela permaneceu contemplando Abelardo. Saboreando os últimos minutos que lhe restavam. Pelo menos por enquanto, pois ela tinha planos e mais planos para que aquele homem fosse seu. Para sentir aquele corpo negro, rígido, robusto, em meio a suas entranhas. E começou lá mesmo. Começou a pensar, a maquinar, como se seu cérebro fosse mais um computador a desarquivar, ler dados, achar combinações. Como se seu cérebro fosse um computador sobrecarregado, superaquecido, viajando na velocidade máxima que se podia chegar.

A polícia chegou. Ela não se deu conta. Não se deu conta, até o momento de que quando Abelardo explicou toda a história, um oficial tocou no seu ombro direito. Glória voltou ao mundo dos vivos. Apenas virou um pouco o rosto em direção ao do policial. Manteve a mesma expressão. Estava lá, e ficaria por dias a fio.

Assombrado, Abelardo viu aquela mulher doente, saindo acompanhada por dois oficiais. Eles a colocaram na viatura. Pelo vidro, o olhar tenaz, um míssil que persegue seu alvo. O pescoço quase completamente torcido e Glória hipnotizada.

Abelardo trancou a porta. Não conseguia mais dormir. Precisava relaxar hoje à noite. Precisava encontrar a mulher mais feia e carcomida da cidade para uma noite de êxtase.

Depois de passar algum tempo numa clínica psiquiátrica, Glória recebe alta. Saindo de lá, pega um táxi e desce algumas ruas à frente.

“É aqui mesmo, senhor”, ela disse.

Olhou com os olhos bem abertos uma luxuosa loja de artigos femininos. Viu aquelas maquiagens todas, aquelas lindas roupas de grifes famosas, aquelas joias que ofuscavam os olhos. Tudo aquilo pareceu uma grande incógnita quando o assunto era seduzir Abelardo. Acabou não entrando. Andou mais alguns metros. Empurrou a porta de vidro de uma loja de produtos químicos, comprou um frasco de ácido sulfúrico e foi embora com o sorriso de míssil.

Telefonema


Alô? Alô?... Ah, ainda não disquei. Este telefone não para de chiar. Desde que foi instalado ele vive com este barulho estranho. Chiiiiiiiiiiizzzz... É tudo volátil. Tenho a impressão de que alguém do outro lado já me chamou. Não sei se foi uma interferência terráquea ou do além. Não sei. Escutei metade do meu nome no chiiiiiiiiiiizzzz. Desliguei. Desliguei antes que pudesse escutar de novo.

Agora são dez da noite de uma sexta-feira, 16 de agosto de um ano que eu sempre me esqueço ao tentar lembrar. Comi um pizza inteira, sozinho. Tudo bem que não foi uma grande, foi uma média, mas, antes eu ficava satisfeito com uma pequena. Foram seis opulentas fatias para o meu estômago. Acho que fome tem a ver com solidão. Solidão provoca fome. Quando nossa barriga ronca, é mais um grito desesperado por companhia. Seja qual comida for, até estragada, mas é a súplica por um preenchimento. E, quando a gente se sente só, a comida já deglutida parece que não faz efeito. Parece que o saco fica vazio de novo. Não para em pé.

Hoje aproveitei o tempo livre para fazer tudo o que tinha de fazer. E o que não tinha também. Inventei coisas. Pintei uma parede, cortei as unhas de uma mão e roí as da outra – porque não consigo segurar direito a tesoura com a mão esquerda -, lavei os cabelos com shampoo e condicionador, li dois jornais antigos, assisti TV. Eu não aguento mais assistir TV. Liguei para o SAC da operadora de TV por assinatura. Quis consultar alguém, ouvir uma voz e esquecer esse maldito grilo que está enfurnado em algum lugar.

Alô?... Ah, está chamando. Mais uma vez. O telefone pulsa. Ao longe, surge uma voz.
Ai! Ela atendeu. Ela que eu estava esperando, ela! E ela atende sonolenta. Sinto que já ia embora, sinto que já encerrava o turno, sinto que olhava os biombos vazios, os computadores desligados, os copinhos descartáveis de plástico fora da lixeira, sujos de batom.

Ela inicia com formalidades, coisa que não precisava. Devia iniciar com intimidades, isso sim. Era o que eu queria. Intimidades a essa hora da noite. Quando se tem milhares de fios e quilômetros nos separando, se quer intimidade, não formalidade. Ela diz “Serviço de atendimento ao consumidor. Boa noite! Meu nome é Marina, em que posso lhe ser útil?”.

Marina, se você pudesse imaginar. Se você pudesse mesmo prever tudo em que me seria útil. Você nem sabe, Marina. E quando eu tenho seu nome, seu nome aqui comigo – até escrevi num papelzinho pra guardar -, me sinto mais íntimo. Nada de formalidades! Esqueça a empresa. Esqueça o roteiro que eles te entregam junto com o pão e o café. Vocês não são robôs, nós não somos zumbis. Nós, clientes, somos seres humanos. Também nos apaixonamos por funcionários de call centers. Principalmente se seu nome for Marina, sua voz for doce, crescida e com sono também.

Eu deixo tudo mudo, tudo vagando pelo ar, pelos cabos de fibra óptica, ponho tudo em risco, enquanto fico calado por alguns instantes, pensando essas loucuras todas, enquanto Marina precisa ir embora, fechar o zíper da bolsa, pegar o próximo ônibus.

“Alô? Senhor? Senhor?...”, Marina insiste. Comprometida. Ela só não quer perder o cliente na linha. Não quer que ele vá dormir com a única programação da TV sendo os chuviscos. Para os demais, isso seria o suficiente, seria surpreendente até. Mas Marina não se importa se o solitário homem que ela vai perder é o futuro pai de seus filhos, o cara que vai resgatá-la de todo e qualquer call center da vida, dos ônibus apinhados de gente. Marina, comigo você só usará uniforme para realizar fantasias sexuais.

Marina, eu não aguento mais assistir TV. Entendo seu trabalho, então, antes que você me interrompa oferecendo um pacote com mil e um canais, canais sobre viagens, reality shows, filmes, seriados, programas de auditório, eu não quero! Não quero, está bem?! Não quero canais com o melhor do esporte. É a coisa que eu menos pratico na vida. Não quero canais sobre futebol, eu não gosto de futebol. Não sou como esses caras por aí que gostam de futebol. Também não estou a fim do pacote de canais adultos. Não quero mais desperdiçar meu tesão com atrizes tailandesas traficadas para o porão de alguma casa dos estados unidos.

Marina foi tocada, pela minha bênção, pela minha conversão. Bastou um segundo, um segundo de hesitação, e lá estava ela, com o telefone em uma mão, com a outra entre os cabelos. Com aquelas unhas vermelhas, lá estava ela. E se eu pudesse lá estar também, se isso fosse possível, enxergando tudo de cima, eu veria uma milimétrica gota de suor correndo rapidamente entre seus seios, fixando-se entre os dois, criando uma ponte. Eu não pedi volumosos seios. Marina, para mim, poderia ser só Marina, somente isso e sua voz, como um fantasma. Porém, já que os fartos seios lá estavam, batizados por minhas palavras e seu suor bento, eu não reclamaria. Nunca.

Marina gaguejou. Depois de hesitar com o silêncio, depois de repensar minha voz, ela gaguejou. Acho que pensava sobre o quão horrível eu era, fazendo-a perder sua noite, ficar aterrorizada com um homem obsessivo, que acredita em amor à primeira ligação.

“O senhor pretende cancelar sua assinatura então?”, ela disse, com a voz mais doce do mundo, com a voz mais delicada, amável, afável, fofinha. Ela disse, com a voz menos compreensiva do mundo. Eu não, eu não pretendo cancelar, eu não pretendo cancelar nada, a não ser eu mesmo. Quero que as contas continuem chegando, entulhando o vão da porta, me lembrando o que eu comprei, com o que eu gastei, como me endividei, como me dei de presente, como fui recolhido para o estoque dos defeitos.

Olha, Marina! Eu não pretendo cancelar coisa nenhuma, tudo bem? Sério, eu não liguei pra cancelar nada. Por mim as coisas continuam sem cancelamento. Sabe o que eu quero cancelar? - me contradizendo - Imagina? - Dessa vez, não falei sobre cancelar eu mesmo. Dessa vez, Marina escutava. Tinha de impressionar de maneira positiva. - Quero cancelar nossa distância, Marina. Quero você aqui, comigo. Quero assistir filmes, seriados, reality shows, programas de auditório, todos com você ao meu lado. Você entende o meu lado? Entende que eu seja capaz de desejar isso?

Marina pareceu querer entender. Riu e chorou rapidamente. Eu ouvi nitidamente. Marina se esforçou para me entender, mas era em vão. Aquela maneira, aquele modo que segui, o jeito que pude tocá-la, era impraticável. Eu poderia ser qualquer um. Poderia ser horrível, por dentro e por fora. Marina nunca teria uma resposta.

Ela desligou o telefone educadamente, formalmente, sem quebrar meu coração, mas também sem ajudar a remendá-lo. Mas eu não culpo Marina. Ela fez o que pôde. Senti isso, mesmo sem que ela tenha me comunicado.

Acordei com o corpo doendo, com fome, com mais uma conta passando por debaixo da porta, com uma torneira ligada – provavelmente do vizinho. Acordei com a TV sintonizada em um desses canais de notícia. Tirei a remela dos olhos para ver Marina chorando enquanto se agarrava desesperadamente ao microfone da repórter. A reconheci pela voz. Foi aí que eu soube que era a minha Marina. Ela falava trêmula sobre o terrível crime acontecido naquela noite: seu namorado fora assassinado por um homem armado com um revólver. Ele teria reagido à tentativa de assalto e levou dois tiros na face. Uma mulher que estava ao seu lado no ponto de ônibus também foi baleada e está no hospital. Marina chegou logo depois.

Marina chorava copiosamente, e era tão triste aquele choro. As lágrimas que varavam o rosto eram tão diferentes da gota de suor entre os seios. Mas Marina não era diferente do que eu imaginava que fosse, mesmo com a maquiagem borrada. Eu salvei meu grande amor.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Garrafarfa


Quero deixar bem claro que
não vou me preocupar em fazer
nada rimado só para alguém satisfazer.
Simplesmente jogo aqui o que eu
decidir. Se soa mal, se soa bem, aí
já é outro final.
Esta parte superior foi apenas uma introdução,
porque agora o que eu escrevo é mais
íntimo do coração.
Criei as garrafas virtuais, que em telas de LCD
navegam muito mais.
Sem procrastinação, é a hora da minha mensagem.
Vem me tirar da internet, fazer
de mim um ser menos inerte.
Vem que agora são duas da manhã.
Eu fico aqui narrando essas coisas e me sentindo
menos só. A cabeça deu um nó.
Quero sempre vomitar um dicionário, mas a
primeira palavra que me vem é otário.
A cidade é pequena, as pessoas são mais.
Você é uma pérola nesse mar e eu a passear
no cais.
Vem jogar Super Mário, dizer que eu sou
bigodudo e não otário.
Me diz o horário de quando a vida começa,
de quando ela tem fim.
Anda comigo nesse trampolim. Vem cheirar
fumaça, vem dizer que sim.

Teresinha


Teresinha tinha um seio maior do que o outro. O esquerdo era maior do que o direito, e isto ela atribuía a um milagre dos céus. O coração era crescido pelo amor a Jesus. O peito era empurrado para a frente, grudado pelo suor com a cruz de madeira que carregava no pescoço.

Seus cabelos não tinham uma cor bem definida. Não se encaixavam em paleta alguma. Era aquela tonalidade que não sobrevive na mente dos outros, que parece tão apagada quanto inexistente. Não sei se pardos, se grisalhos, se castanhos, se ruivos, se loiros. Os cabelos de Teresinha faziam crer que somos todos daltônicos.

Morava só. Tão só que parecia viver em quarentena, tão só que suas flores pareciam de plástico. Não tinha TV, nem computador, somente um aparelho de som quebrado que não tocava CDs. Talvez seu lugar preferido da casa fosse a sala, lá havia um armário antigo e uma poltrona verde desbotada, acolchoada ao extremo. Sentava na poltrona por horas, até não mais sentir sua bunda inexistente. Ficava lendo à meia-luz sua leitura obrigatória regozijante, a bíblia. Sofria de hipermetropia; sete graus em cada olho. Parecia milagre dos céus também, pois aqueles olhos danificados eram o registro do quanto sua visão foi destinada ao Senhor e seus ensinamentos.

Não tinha filhos, não teve namorado, nunca transou nem se masturbou. Era tão intacta que que nem seus pelos pubianos foram mexidos. Estavam todos lá fazendo um grande volume, um chumaço impressionante. Seu único homem era Jesus, o único capaz de possuí-la por inteiro sem rompimento de hímen. Amém.

Saía de manhãzinha para aproveitar o sol, escutar o canto dos passarinhos e comprar pão. Levava um saco de pães quentinhos para casa e distribuía alguns pelo caminho entre os mendigos que surgiam. Quando chegava, era o mesmo ritual de sempre: faca, manteiga, pão, café. E vinha a azia de sempre também, lhe queimando como se tivesse satã nas entranhas espetando tudo com o seu tridente.

Em apenas um momento de sua vida Teresinha pretendia ficar bonita, era quando ia à igreja. Talvez não pensasse bem em ficar bonita, mas apenas em ser igual às outras, às velhinhas que ela começara a se tornar. Com 45 anos a aparência era de bem mais. A maquiagem lhe acrescia velhice ao invés de subtrair-lhe e o kit básico com batom e pó para rosto tinha mais tempo de existência do que ela mesma. Com o rosto carregado, pintado, quase como quem vai para a guerra, ela exalava a fedentina da maquiagem mofada, assim como as outras velhinhas, asseadas mas fedidas, com seus terços envoltos nos braços. Assistia a missa e fingia entender o sermão do padre que arrastava as palavras, balbuciava algo e de claro mesmo só o amém!, mas só o amém era necessário. O que o precedia era tudo de melhor, de positivo e benéfico. Ela tinha certeza. Era a casa de Deus.

Asseava-se numa enorme e velha bacia que fazia de banheira. Acostumara-se a tomar banho assim desde pequena. Morava num sítio com os pais, e enquanto os primos improvisavam um chuveiro erguendo uma garrafa com um funil na boca, ela preferia se esbaldar na bacia, sozinha. A bacia das lavadeiras, das mulheres de fé que lavavam roupa o dia inteiro e cantavam à beira do rio num tom peculiar. Terezinha tinha fixação pela bacia, por ser envolta pelas águas, por batizar-se todos os dias. Um manto sagrado após o outro, uma benção após a outra. Seu coração enchia-se com apenas um sentimento por parecer desconhecer os outros. Ele batia compaixão... a quem?

Um dia ditado pelo sino da igreja, nutrido pelos pães e cerejas de sobremesa, percorrido pelas sapatilhas, vividos como numa ilha, transbordados pela bacia, satânicos pela azia, abençoados pela liturgia, iguais como ela queria.

Foi num dia tão igual aos outros, tão frouxo e imperceptível, tão dopado como o padre tonto pelo sangue de Cristo que Terezinha aguardava para atravessar a rua. O terço colado no peito, o vento passando pelos cabelos estáticos, o braço pressionando com força a bolsa contra o corpo. Terezinha temia um assalto, um pivetinho, trombadinha, moleque, cheirador, desses que andam em grupinhos, e empurram, rasgam, arrancam, devoram sem piedade, derrubam no chão sem piedade. Prevenir é sempre melhor do que remediar.

Sinal verde e suas perninhas peludas partem. Pequenos passos nada pretensiosos. Como gueixa, como queixa de quem esperneia para não andar mais rápido. Teresinha observa as faixas de pedestres e vê nelas a Via Crúcis, ataduras envolvendo um fundo incerto, profundamente negro. Sente uma estranha leveza no ser, como se a alma evaporasse pela boca, mas foram apenas gases. Enquanto o ônibus lotado lhe arrastava através do asfalto mais quente pelo seu sangue novo, ela teve a certeza do pensamento que a acompanhara por toda a vida: Deus não existe.


Frígida


Oi, oi meu amor. Você demorou muito hoje, não foi? Está com calor? Choveu a tarde inteira, mas eu estou sentindo calor. Olha, minha camisa está ensopada. O ventilador está quebrado, fica fazendo um barulho estranho e a hélice para de girar. Espero que não se importe com o calor, baby. Você lida bem com o calor. Nunca te vi suar, nunquinha, nem uma gotinha escorrendo por essa testa linda. Você lida bem com as temperaturas, as altas, as baixas. Anda nuazinha no frio. Eu acho tão bonito. Sinto orgulho. Você só fica quente quando a gente quer, não é? Você ferve, mas não sua nada, já disse.

Ai, ai, querida! Lembra-se desta música? Quando a gente se conheceu ela tocava. Recordo-me bem daquela tarde, segunda-feira, eu comendo um sorvete. Não estava nada bom. Nada estava bom. O sorvete tinha um gosto estranho, as pessoas me olhavam torto e eu tinha sido assaltado. Só havia dinheiro para o sorvete porque escondia, por precaução, alguns trocados dentro da meia. Uma gota daquele maldito sorvete sujou a minha camisa, minha camisa branquinha. Tentei limpar com um guardanapo, mas só espalhou a sujeira. Era tão visível. Quando eu levantei o rosto, a primeira coisa que vi foi você. Estava olhando pra mim, descaradamente, com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto. Nunca garota nenhuma tinha olhado assim para mim. Era penetrante, sabe? Eu tentava desviar, não era capaz de olhar para alguém tão bonita assim como você. Mas me vinha uma vontade, uma vontade imensa de olhar mais uma vez nos teus olhos antes de pagar aquela porcaria de sorvete. E quando eu olhava, ah! aquele sorvete tinha o melhor gosto do mundo. Quando eu olhava, ah! seus olhos estavam lá, como pedras preciosas ainda não descobertas por ninguém. Ah! quando eu olhava... eu parecia um gatinho trêmulo.

Levantei-me para pagar o sorvete, me apoiei na mesa, trêmulo, trêmulo, um pintinho trêmulo. Paguei. Meus últimos trocados, minha última chance de continuar olhando para você. Fui-me, ou melhor, estava indo, e você olhando, olhando. Era agora ou nunca. Eu sabia, sabia que você era meu amor, amor de toda a vida. Não ia perder aquela chance, por mais fraco que eu fosse. Você não me abandonou, com aquele olhar cintilante, estático, seus olhos só em mim. Guiou-me com os olhos que não se mexiam. Eu fui, segui sua direção, meu coração. Encostei meu coração na vidraça. Era a última coisa que nos separava, e eu queria sentir aquela última coisa, para depois dizer adeus. Segurei-te pelo braço, e foi quando eu soube que tudo aquilo era real. Não pude conter meus dedos fracos, meu suor escapando pelas fracas mãos. Amor, você não disse uma palavra sequer, porque bastava olhar, e isso você faz bem. Diz muito com os olhos.

Desculpe-me, haha, pelo meu romantismo barato. Sei que às vezes você não gosta, não fala nada, fica aí, caladona, carrancuda. Mas eu sou assim, amor, lembro de cada instante teu, todos os dias que estou do teu lado.

Sua mão está descascando? Espera, me deixa ver de perto. Sim, está sim. Amor, você tem vitiligo? Haha. Brincadeira! Amanhã compro uma lata de tinta.

BOCAABOCA


Nesses últimos dias eu estava acabado. Comia pouco e mal, praticamente não dormia. Permanecia o dia inteiro parado, sem me mexer nadinha. Ficava por um bom tempo sentado no banco de uma praça, fingindo ler um jornal que fedia a urina de rato. Meu corpo inteiro doía pelas horas e horas que eu passava com a bunda esmagada naquele banco duro e frio de madeira. Eu ficava lá sentado, na praça, talvez porque houvesse um pouco de esperança, mas não a esperança que eu desejava para mim. Era o tipo de esperança que eu esperava findar-se. Aguardava que as crianças parassem de brincar e fossem levadas para casa com um puxão de orelha violento; que os velhos dessem um fim no gamão e nas damas depois de uma tórrida chuva; que os animaizinhos fugissem das coleiras. Talvez eu quisesse ser a estátua daquela praça para que todos depositassem seus olhos em mim. Doce ilusão! Nem sendo uma das mais belas isso aconteceria. Pelo menos riscar-me-iam com pornografia; caralhinhos voadores e bucetas avoadas. Cravariam em mim os nomes dos amores, corações e desenhinhos bregas de quem se apaixona pela primeira vez. Isso eu sei...

Eu realmente odiava aquele jornal fedido sustentado pelos meus dedos sujos. Havia lido aquelas notícias milhares de vezes. Eram as piores notícias possíveis. Minha jaqueta tinha nos bolsos restos de salgadinhos e um pedaço de bolo esfarelado de alguma festa de aniversário. Tirava algumas migalhas e as jogava para os pombos, mas não tudo. Não queria me desfazer completamente dos restos. Isto não tem nenhum significado, acreditem! Talvez, bem no fundo, tenha. Se alguém prosseguir com aquelas análises bichas e intelectualóides, talvez ache algo, mas eu não pensava em nada.

Tudo seguia na tranquilidade doentia de sempre, mas um novo elemento rompeu com aquilo. Algo de novo e de bom e de verdadeiramente esperançoso trouxe anormalidade. Eu ficava olhando para esse algo como o público fita atento a bolinha em uma enérgica partida de tênis. Meus olhos lacrimejavam, fruto da emoção e da falta de piscadas. Era uma boca, maravilhosa, nunca apresentada a este mundo. Tenho certeza de que aquela boca nasceu naquele dia. Escarlate e vívida como o sangue fresco sob a luz do sol, aquela boca tornou-se o meu ponto de referência. Se eu fosse um monitor, sofreria de dead pixels.

Ai! Uma carne suculenta, de primeira, autossuficiente, serelepe, de outro mundo. Era delicada como uma pétala de rosa, trilhada por sulcos quase imperceptíveis mas mais reveladores do que as linhas de uma mão. A linha da vida e da morte, da sorte, na boca. Comecei a poetizar, a filosofar, a tagarelar em meu âmago, a enlouquecer. Obsessão, esta era palavra mais bonita que eu podia pensar.

Tudo sumiu. O blackout da vida se fez de uma vez e os velhinhos, os cachorros, as crianças, os casais, os ônibus, os bancos, os jornais, os sons, os semáforos, os carros, a fumaça, o sol e a lua, tudo, tudo isso transformou-se em plano de fundo; era uma tela borrada na qual cada pincelada não fazia a menor diferença. Havia apenas uma crença, era naquela boca perfeita de nascença.

A boca independente não precisa de sorriso, é sempre aquele morder de lábios indeciso que faz ela ser deslumbrante, que me deixa tão arfante. Podia agora mesmo passar um elefante do meu lado, mas eu continuaria vidrado, olhando para a boca banhada de batom, expressa num só tom. Quem dera eu ter antes conhecido essa boca que jurando fidelidade iria sorrindo para a forca.

Era como uma borboleta de asas imaginárias, que davam seus contornos de tempos em tempos materializadas pelas baforadas quentes em meio ao frio desalentador. Eu poderia ver aquela boca voando até mim em determinados instantes, pairando no ar como um beija-flor totalmente diligente em seu voo.

Com toda paciência do mundo eu esperei. Eu sabia que em algum momento aquela boca estaria no mesmo espaço do ar que me envolve e respiro. Passaram-se dias e a boca permanecia por lá, de longe, fingindo que eu não existia, mas já calculando a hora de aproximar-se. Deduzi que a dona de lábios tão divinos trabalhava naquela região, talvez como uma puta que faz barba, cabelo e bigode, talvez como uma ingênua secretária que foge dos assédios de seu patrão. Só sei que lá estava ela de segunda à sexta, às 9h da manhã. A boca descia do ônibus – que era só uma grande mancha amarela – às 9h da manhã.

Remexendo nos meus bolsos em meio aos farelos de alimentos encontrei um giz de cera. Sabe-se lá o que aquilo fazia no meu bolso. Talvez eu estivesse numa festa infantil. É a explicação mais plausível para os doces, salgados e o giz. Bem, me veio uma ânsia de rabiscar e retratar aqueles lábios suspensos no ar. Por coincidência o giz tinha a mesma coloração escarlate que eu via em minha frente. No jornal fedido e enrugado eu multipliquei milhares de bocas por entre as letras, manchetes, notícias, fotos. Passei por cima de todos os acontecimentos do mundo de 09 de novembro de 1991. O jornal era quase todo vermelho; quase todo sangue. O giz era quase todo nada. Sumiu não minha mão tão inexplicavelmente como apareceu no meu bolso.

Quando voltei à mínima consciência possível, o elemento x vinha até mim. A língua correu pelos dentes como sendo uma preparação. Era eu mesmo? Era minha direção? Com tantos espalhados pelas ruas, vestidos com seus ternos confiáveis, porque ela trilharia o caminho até um aparente mendigo?

“Bom dia. Você pode me informar que horas são?”, perguntou.

Perdi a noção de tempo e espaço. Eu não tinha relógio. Olhei para a torre da igreja: os ponteiros parados. Procurei algo no jornal. Havia apenas um pequeno espaço não rabiscado: 09 de novembro de 1991, “O dia em que eu fiquei mudo”.