quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TÉDIO

Remédio para o tédio, quem tem?
Remédio para o tédio, só um trem,
partindo-me ao meio, uma vida sem
freio.
Remédio para o tédio, você dizendo
que é recreio.
Os dias andam feios, os problemas
cobrem tudo. Descobri que o tédio
é tão tédio, porque ele anda
sempre mudo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SAL

Se eu chorar por dentro,
de gota em gota, quanto eu aumento?
Se eu chorar por fora, para que
isso percebam, quanto demora?
E cada lágrima, o que conta de nós?
Se escorre pelo rosto, que estamos sós?
Se a mim mesmo eu pertenço, porque
das tuas mãos quero um lenço?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

EAÍ


E aí você está sentado, sozinho na mesa, esperando sua pizza ficar pronta. Já devia ter chegado. E aí o garçom liga o televisor para fazer o tempo não parecer tão lerdo. Ele sintoniza no Faustão. É o sinal do domingo. É domingo. É apocalipse. Começo e fim dos tempos. Começo da semana e fim da vida. Um suicídio agraciado com segundas, terças e infinitas outras chances.

E aí você imagina o Faustão babando borbulhosa espuma branca seguida de gritos desesperados da plateia. E aí é só o se vira nos trinta. E aí você percebe que, talvez, não consiga se virar, mesmo quando tiver 30. E aí tem um casalzinho do lado que, nem ao menos se dá conta dos 30 minutos de atraso da pizza. E aí que eles riem e ambos usam aparelhos dentários e têm espinhas. E aí ele é intumescido de tanto lanchar anabolizantes, do tipo que parece um baiacu lutando pela sobrevivência. E aí que ela tem um decote, uma calça Gang e uma pequena bolsa capaz de remeter qualquer um à genitália feminina. O carro dele é o pau, enorme, reluzente, robusto, quatro por quatro, que aguenta qualquer tranco. A bolsa dela é a boceta, feminina, delicada, lacrada, portátil, cheirosa, virgem. O pau dele é atrofiado e não aguenta o tranco. A boceta dela é quatro por quatro, enorme e, lá cabe um carro.

E aí você olha para o lado. Amigos felizes, descontraídos e inquietos falam sobre cachaça, raparigas e veados, porque é engraçado. Eles mexem os braços habilmente, como um mágico treinado para lhe desviar a atenção, mas seu olhar é sagaz e você consegue enxergar o que há por trás. E aí seus olhos vidram na espuminha branca que se forma na boca do mais tagarela, sustentado por rapariga-cachaça-veado, um neologismo que não precisa ser explicado. E aí aquela espuminha é tão branca e tão viva e tão borbulhante que, por um instante, você se lembra do Faustão espumando.

E aí que a juventude é promissora. E você, tão bom, tão crítico, observador e sensato ficou para trás. É só um pensamento que ocorre, quando a hipnose por espuma branca é interrompida pelos passos encantadores de uma moça com a capacidade telepática de fazer algo dentro das suas calças erguer-se e, de esponja, transformar-se em adamantium.

E aí não é para o teu bico, porque ela já tem um. E aí você tem a certeza de querer ser um avestruz e enfiar a cabeça no buraco quando ela cumprimenta primeiro o carro e a bolsa e, logo depois, o Aurélio rapariga-cachaça-veado. E aí, meu deus, alguém ali quer ser advogado, porque o pau aumenta mais do que com alargadores vendidos na internet. E aí, depois de “nóis faz” e “nóis fumo”, interessei-me pelos serviços. Quero defender-me deles mesmos.

E aí é bom morar em cidade pequena, porque todo mundo se conhece; porque todo conhecimento do mundo se desconhece; porque é pacato; porque um carrapato sorvendo forte um cão é a nova espuma branca da nação.

E aí, passou a fome. Você vai embora sem dar satisfações, porque, provavelmente, a pizza já estava sendo embalada. Mas, alguém de boca espumante, devorará aquelas dez fatias de calabresa e frango com Catupiry.

E aí você caminha e observa todos tão risonhos e acomodados em seus bancos de madeira que nem parece que amanhã será segunda-feira. Mas a segunda chega, e as conversas desgastadas por bocas espumantes e salivares também. As pessoas estão todas empolgadas, atarefadas e engajadas em viver uma vida que, de longe, já lhe deprime.

E aí, eis que surge um banco acomodador bem na sua frente. Sentar é a única tentativa de assentar suas ideias viajantes de um cosmo cinzento. Muito bem, sentando, indago-me, do domingo, só Faustão? Da pizza, só gordura? Da boca, só espuma? E aí?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Brejeira


Você tem cheiro de perfume vencido.
Você tem cheiro de maquiagem vencida.
E você usa umas roupas meio de velha,
mas há pouco iniciou a descoberta da
vida, ainda cheia de viço, inalando o
ar da mocidade.
Vivemos juntos toda essa despreocupação.
Não pensamos em nada, a não ser café,
cobertor, luar, estampas floridas, papéis.
Nossa mesma idade, nosso suor a evaporar,
nossos buços de paladar quase frutífero.
Morangos de uma beleza chamada juventude.
Somos pássaros enquanto nossos pais
estão na sala, e podemos brincar de médico
ou de jogo da velha.
Nos casaremos, teremos três filhos e você
continuará sendo uma caipira intelectual,
porque eu sou o escritor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AQUELA GAROTA


Aquela garota obstinada, que não
lê Capricho, pois prefere Hqs.
Aquela garota que nunca subiu no
salto alto porque pode correr muito
bem de tênis.
Aquela garota do esmalte descascado,
porque ninguém é perfeito.
Aquela garota que valoriza um
bom gramado, porque os
outros só parecem ruminantes.
Aquela garota que não se deixa levar,
que não se deixa vender, porque
é caixa registradora.
Registra cada momento de todos
à sua volta com seus binóculos
invisíveis.
Aquela garota que vê mais do que
fala, porque sabe que eles são
incorrigíveis.
Aquela garota que gosta de tesoura,
cartolina, caneta e suor, porque
reconhece o que é maior.
Aquela discrição, aquela leveza,
aquela personalidade, aquela
singularidade, aquela paralisia.
Ela, só aquém de quem idealiza.

sábado, 21 de agosto de 2010

Profundidade


As pessoas me desorganizam
mais do que eu posso me organizar.
E, apesar de sermos bípedes, não
caminhamos juntos.
Cada vez menos eu vejo semelhança
entre meus semelhantes.
Não enxergo asas e nem quem
queira voar.
Não enxergo ideias, pensamentos
e reflexões aeroplanas.
Ninguém mais pé no chão.
Todos na lama.
Ninguém mais cabeça nas nuvens.
Todos despencando delas.
Quando meus olhos insistem,
só querem de volta alguém
para sonhar junto. Alguém que
veja uma coerente semelhança
não resumida à superfície.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A VIDA PARA UMA BARATA É CARA


Às vezes a gente assiste nos programas de TV quadros que mostram exemplos de superação. Ora é o paratleta sem pernas e braços que, mesmo assim, disputa o salto com vara, ora é a garota de 15 anos sobrevivente de uma leucemia, um atropelamento de caminhão e um tiro de fuzil AR-15. O que ninguém vê são baratas ilustrando quadros desse tipo. Porém, são elas o exemplo perfeito do que é espírito de sobrevivência. Afinal, você nunca verá um ser humano rastejando por aí com seu intestino do lado de fora nem vivendo por uma semana após ser decapitado – e quando acontece isso com a dona barata, ela morre de sede, mas é porque ainda não descobriu o canudinho.

Elas não mudaram muito sua aparência em milhões de anos. Enquanto os dinossauros tomavam porrada de asteroides na cabeça, as baratas desfrutavam de sombra e água fresca, vendo tudo acontecer como num grande espetáculo pirotécnico.

Esses insetos, alvos do mais profundo asco dos seres humanos - principalmente por parte das mulheres - são extremamente ousados e fazem uso até de psicologia inversa para confundir seus algozes. Todo ser, ao sentir-se acuado, corre, corre o mais rápido e para mais longe que puder do perigo. As baratas, filhas da puta que são, investem contra você, vão direto na sua direção, acuam seus pés, enquanto se segura o chinelo com a mão.

Baratas já foram estrelas de filmes de terror, de comédia e ganham cada vez mais espaço no coração e nas vulvas das raquíticas atrizes pornôs nipônicas. Elas estão por todos os lugares, por todos os espaços, frestas, buraquinhos e vãos. Elas são capazes de digerir celulose, de abocanhar seus livros e suas memórias. Não importa o quão sujo, o quão limpo, o quão pobre, o quão rico você seja, sempre haverá uma barata na espreita.

Talvez a insistência das baratas em se proliferar e continuar vivas – o que nos tira do sério -, seja a lição que faltava para aquelas pessoas não mais capazes de se consternar com exemplos humanos. Tenha a barata como referencial. Cada obstáculo percorrido é um tubo de Baygon vencido.

Photobucket

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nada


O ex-integrante de boy band
que dançou,
a atual garota da capa
sem miolo,
o ex-big brother
sem hermanos,
a atriz pornô metidinha,
o vídeologger desconectado,
o apresentador sensacionalista
fora da lista,
o animador de plateia sem
os braços,
o sósia negro do Michael Jackson,
o escritor das estantes vazias,
a roda-gigante para gente
quadrada,
um domingo na pizzaria,
todos eles numa escura
sala neon esfaqueando-se
com uma faca de pão.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tele Senas e Abacaxis


“Quer comprar abacaxi? Traz Tele Sena!!! Traz Tele sena!!! Este aqui é docinho, docinho, docinho! É abacaxi da Paraíba”. É assim, em meio ao já caos de uma cidade pequena, que uma voz se destaca na multidão. Uma luta covarde entre o burburinho dos transeuntes e o alto-falante do dono do caminhão. Caminhão que eu tenho apenas na imaginação, e é vermelho com uma lona cobrindo os abacaxis. Bem que eu queria sair, dar uma espiada, mas reservo-me ao direito de ficar em casa.

Aí vem em mim uma dose de encanto junto de uma melancolia, de um reconhecimento da decadência que passa despercebida. Eu me pergunto “onde estou?” e “que lugar é este?”, aí dou por mim e percebo o quanto é difícil sair.

É uma desconstrução dos significados; é sexo sem amor; é estupro; é o aterramento de uma vala para encobrir a profundidade. O abacaxi, vindo de longe, passa, passa por toda a cidade, como um turista, como um terrorista escondido sob a lona, a ponto de explodir. Passaria despercebido não fosse o alto-falante que denuncia, que clama, que chama. Aí as formigas aparecem ansiosas por açúcar. As pessoas e seus baldes. Zumbis de um sol nordestino que putrefaz com mais facilidade toda e qualquer carne.

Do fundo de uma gaveta qualquer saem as Tele Senas esquecidas. Mais esquecido ainda o sonho de tornar-se milionário, de conhecer o homem do baú. Com a desconstrução de significados, o título de capitalização passa a ter valor pecuniário e o abacaxi, outrora apenas metafórico, passa a ser literal.

Desta maneira a transação é realizada. Pessoas felizes com seus baldes transbordando abacaxis; vendedor exibindo seu dente de ouro, contente pelo dia não ter ido por água abaixo.
Vem a faca carrasca desapossando o rei abacaxi e renegando seu item mais nobre, a coroa. É por isso que todos permanecem súditos, dependentes de suas amareladas Tele Senas. Falta-lhes atenção aos detalhes.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Óculos e Bigode


Quero usar pochete,
ter cabelo no peito e saber
que você me ama desse jeito.
Quero ter dente faltando
e sobrancelha colada e saber
que pra você isso não é nada.
Quero ter nariz grande e voz
anasalada e te ver ainda apaixonada.
Quero usar óculos fundo de garrafa
e passear contigo de mãos dadas.
Quero não ter amigos, ser fichado
como louco e saber que isso
não influencia nem um pouco.
Quero ter alface no dente e
estar certo de que você continuará
a sentir o que agora sente.
Quero andar com o desodorante
vencido e saber que
entre nós dois isso não é perigo.
Quero ter um bigode como o
do Belchior e ver que nosso
amor é sempre maior.
Quero que você não se
assuste, pois isso não é um
embuste, apenas um disfarce.
Assim, de todas as maneiras
você prova que gosta de mim.

domingo, 18 de julho de 2010

Até Logo


Ah! se nosso passatempo
fosse comer biscoito Passatempo
e só olhar as nuvens.
Ah! se todo o tempo do mundo
fosse meu para contar quantas
listras existem nesse vestido teu.
Ah! se teu cheiro grudasse feito
fita adesiva no meu nariz e
respirar fosse mais lembrar.
Queria escrever como se
cada palavra, expressão e
olhar teu fosse uma música
que caminha para o ápice,
mas, exceto o som das teclas,
é tudo silêncio porque eu
acho que tudo que se aproxima
de mim é silêncio. Um silêncio
tão hermético que me prende
nesta outra dimensão.
E aí nunca ninguém irá me
compreender, porque eu
sou intocável.
Sendo assim, tuas mãos
em mim, a boca, a pele
e o perfume, são só um
silêncio que se faz presente
quando coloco aquelas
músicas pra tocar.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tesoura


Photobucket

Alguém, que eu não sei o nome, partiu-me ao meio, sem nenhum receio de que eu fosse me dividir em dois. Ainda bem que não, pois minhas partes são feijão com arroz, são casadas. Agora eu não falo nada, fiquei nessa de deixar o vento me levar pra lá e pra cá, como o velho jornal que só me agradava o cheiro. Estou meio perdido numa ventania sem fim. Enquanto as pessoas leem seus jornais, ninguém lê a mim.

Postado originalmente em outro blog meu já falecido. O desenho também é meu.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ainda Falta


Tudo o que eu tenho são
esfirras de frango
que me fazem passar mal.
Tudo o que eu tenho são
amigos que me visitam nas férias.
Tudo o que eu tenho são
amores criados para
sustentarem meus poemas.
Tudo o que eu tenho são
as observações irônicas
capazes de levar ao riso
e encobrir um coração amargurado.
Tudo o que eu tenho
são sonhos débeis mutilados
sempre que abro a porta do quarto.
Tudo o que eu tenho é
uma organização transformada em
caos quando preciso lidar com os outros.
Tudo o que eu tenho é
a incessante busca por um
coração que me distancie das
coisas que eu não desejo ter.
Tudo o que eu quero ter é
alguém que não me ache idiota,
mas apenas sincero.
Tudo o que eu quero é
humor, melancolia, estilo
e sua vontade de erguer meus
braços feito arranha-céus.
Tudo o que eu quero é
manter as esperanças de
que o que eu posso querer também
esteja em você.
Tudo o que eu posso querer é
ensinar e aprender que bons
sentimentos bebem do elixir
da longa vida e apagam
qualquer ferida.
Tudo o que eu quero é
ir embora dos lugares
que assassinam meus desejos.
Tudo o que eu quero é
alguém que queira.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

0


E se o gelo da minha mão
conhecesse o gelo da tua,
seríamos capazes de congelar
essa rua?
Sobreviveríamos às baixas
temperaturas da lua?
Nosso mal é uma constante
febre glacial que não nos
permite ser como o vizinho.
O sol se põe e eu congelo sozinho.
Estalactites e estalagmites
nascendo dentro de nós,
perfurando todo o amor restante.
É sempre gelo de principiante.
Pensei em esfriar a cabeça e
e passei as férias dentro da geladeira.
Acabou a energia, eu não fiz o que queria.
Perdi a noção de noite e de dia.
Li no jornal os dados alarmantes
sobre o dado ser um cubo de gelo.
Joguei-o, tirei a sorte:
você mudou-se para o Polo Norte.

sábado, 3 de julho de 2010

Unidade Imaginária


Queria te falar em francês,
mas sempre parece grego.
Acho que descobri que
sonhos fragmentados nada
mais são do que pequenas
unidades de desilusão.
Talvez se a gente se
fotografasse todos os dias,
talvez, perceberíamos com
o tempo um sorriso que murcha,
que não vence mais a gravidade.
Os mapas dos lugares que eu
pretendia visitar estão ficando
desatualizados. Vai tudo ficando
de lado. Fora da rota.
Sinto-me mal por não gostar
dessas pessoas, mas elas são
tão lugar. Elas todas são
cidade sem turismo.
Perco-me pensando em furos
no tempo e no espaço, em
realidades paralelas. Fico
pensando em sair para contar
as estrelas, deitado sobre um
refrescante gramado.
Penso e escrevo, como agora.
É um fio de esperança, de insistência
burra e cega, de tolice em achar
que o meu individualismo vale
alguma coisa.
Será que você aí sabe da leveza
e fragilidade desses pensamentos?
É capaz de perceber o trânsito que eles
atravessam antes de nascerem
para o caos?
Com um cumprimento, com uma
campainha, com um outro alguém,
eles se dispersam, se desorganizam
e transformam-se em simples e
pequenas unidades. Desilusões.