E aí você está sentado, sozinho na mesa, esperando sua pizza ficar pronta. Já devia ter chegado. E aí o garçom liga o televisor para fazer o tempo não parecer tão lerdo. Ele sintoniza no Faustão. É o sinal do domingo. É domingo. É apocalipse. Começo e fim dos tempos. Começo da semana e fim da vida. Um suicídio agraciado com segundas, terças e infinitas outras chances.
E aí você imagina o Faustão babando borbulhosa espuma branca seguida de gritos desesperados da plateia. E aí é só o se vira nos trinta. E aí você percebe que, talvez, não consiga se virar, mesmo quando tiver 30. E aí tem um casalzinho do lado que, nem ao menos se dá conta dos 30 minutos de atraso da pizza. E aí que eles riem e ambos usam aparelhos dentários e têm espinhas. E aí ele é intumescido de tanto lanchar anabolizantes, do tipo que parece um baiacu lutando pela sobrevivência. E aí que ela tem um decote, uma calça Gang e uma pequena bolsa capaz de remeter qualquer um à genitália feminina. O carro dele é o pau, enorme, reluzente, robusto, quatro por quatro, que aguenta qualquer tranco. A bolsa dela é a boceta, feminina, delicada, lacrada, portátil, cheirosa, virgem. O pau dele é atrofiado e não aguenta o tranco. A boceta dela é quatro por quatro, enorme e, lá cabe um carro.
E aí você olha para o lado. Amigos felizes, descontraídos e inquietos falam sobre cachaça, raparigas e veados, porque é engraçado. Eles mexem os braços habilmente, como um mágico treinado para lhe desviar a atenção, mas seu olhar é sagaz e você consegue enxergar o que há por trás. E aí seus olhos vidram na espuminha branca que se forma na boca do mais tagarela, sustentado por rapariga-cachaça-veado, um neologismo que não precisa ser explicado. E aí aquela espuminha é tão branca e tão viva e tão borbulhante que, por um instante, você se lembra do Faustão espumando.
E aí que a juventude é promissora. E você, tão bom, tão crítico, observador e sensato ficou para trás. É só um pensamento que ocorre, quando a hipnose por espuma branca é interrompida pelos passos encantadores de uma moça com a capacidade telepática de fazer algo dentro das suas calças erguer-se e, de esponja, transformar-se em adamantium.
E aí não é para o teu bico, porque ela já tem um. E aí você tem a certeza de querer ser um avestruz e enfiar a cabeça no buraco quando ela cumprimenta primeiro o carro e a bolsa e, logo depois, o Aurélio rapariga-cachaça-veado. E aí, meu deus, alguém ali quer ser advogado, porque o pau aumenta mais do que com alargadores vendidos na internet. E aí, depois de “nóis faz” e “nóis fumo”, interessei-me pelos serviços. Quero defender-me deles mesmos.
E aí é bom morar em cidade pequena, porque todo mundo se conhece; porque todo conhecimento do mundo se desconhece; porque é pacato; porque um carrapato sorvendo forte um cão é a nova espuma branca da nação.
E aí, passou a fome. Você vai embora sem dar satisfações, porque, provavelmente, a pizza já estava sendo embalada. Mas, alguém de boca espumante, devorará aquelas dez fatias de calabresa e frango com Catupiry.
E aí você caminha e observa todos tão risonhos e acomodados em seus bancos de madeira que nem parece que amanhã será segunda-feira. Mas a segunda chega, e as conversas desgastadas por bocas espumantes e salivares também. As pessoas estão todas empolgadas, atarefadas e engajadas em viver uma vida que, de longe, já lhe deprime.
E aí, eis que surge um banco acomodador bem na sua frente. Sentar é a única tentativa de assentar suas ideias viajantes de um cosmo cinzento. Muito bem, sentando, indago-me, do domingo, só Faustão? Da pizza, só gordura? Da boca, só espuma? E aí?