segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CRESCER

Quando penso em crescer, diminuo.
Diminuo uma série de extravagâncias.
Mas como pensar em crescer com meu
coração tão apertado que somente um
amor platônico viaja sentado?
Como crescer e me desfazer das
HQs, dos brinquedos mutilados, dos
púberes seriados?
Prefiro continuar nem grande nem
pequeno, apenas todo de antes, agora
e sempre.
A quem interessar, sou menor,
minimizando cada espaço a ponto de
colar um abraço.
Sou menor porque o universo é tão
mais e eu aqui me preocupando
em achar palavras.
Eu, de pequeno coração, dou um nó
em mim mesmo. Só desata quem
diminui comigo sem que seja a esmo.

sábado, 20 de novembro de 2010

HORÓSCOPO

Quando ele casou-se, achava que ela era virgem, tanto pela pouco idade como pelo cheirinho de coisa intocada. Quanta ingenuidade! Nem mesmo nos dias de mais sorte da sua vida o horóscopo dispararia “hoje é o momento certo de penetrar uma virgem, prepare suas ferramentas e não abaixe a cabeça”, a não ser que, ao cruzar a esquina, desse de cara com Angela Bismarchi e seu hímen de plástico, mas aí seria um tremendo azar.

Aos trinta e três anos de idade os vincos já lhe marcavam a face e as preocupações sobre uma futura calvície ou um futuro câncer de próstata já eram torturantes. Todo dia era a mesma coisa. Nem os móveis mudavam de lugar, o que mudava era seu amor por ela, antes uma avenida, hoje uma viela.

O sonho dele era ter filhos, mais precisamente um lindo casal de gêmeos. O sonho dela era ter filhos, mais precisamente fazê-los com um lindo e musculoso casal de gêmeos ao mesmo tempo.
No princípio, ele era um leão na cama, selvagem, líder, forte, destemido, rei e bom nos rugidos. Ela não parecia fingir, era a leoa, domada, submissa, safada e dava unhada.

Foi num dia desses que o rei da floresta perdeu seu trono para um gorila. Era isso que o outro parecia, um gorila. Vendo aquela cena dela com o outro, acoplados no meio da sala, derrubando seus troféus, seus porta-retratos e documentos no chão, ele soube que a leoa era um escorpião dos mais letais. Pior visão do que aquela só ela sendo autora de best-seller também.

Com a terrível sensação de um par de chifres e da carteirinha do clube dos touros no bolso da calça, ele partiu enfurecido como uma leão que caça sua zebra, mas deu zebra e, antes que martelasse os dois, o gorila tomou o martelo da sua mão para cravá-lo em sua cabeça. Ela sentiu nojo do sangue dele espirrado em sua gengiva, mas felicitou o brutamontes ricardão pelo feito.

Partiu o corpo do marido simetricamente, como uma dona de casa prendada. Enrolou os pedaços cuidadosamente no jornal do dia e depois empacotou tudo com sacos plásticos pretos. Jogou no aquário, porque a ração dos peixes havia acabado.

Envolvendo a face do falecido, a seção de astrologia. Para seu signo, Libra, o seguinte texto: “Mantenha-se calmo e não perca a cabeça. Discussões banais podem originar enormes desavenças. O momento é de amar e buscar sua alma gêmea, que pode estar do seu lado. Viva a vida e se desligue dos possíveis problemas que possam surgir. Bom momento para tirar férias”.

sábado, 13 de novembro de 2010

2007, RADIOHEAD E ÓCIO


Em 2007, numa onda de ócio e tédio que perdura até hoje (mais o tédio), fiz uma animação simples, usando meios precários, como um programa não muito completo de edição de vídeo e imagens obtidas do meu scanner para uma animação quadro a quadro. Apesar do resultado passar longe de algo profissional, acreditem, deu trabalho. A inspiração foi a própria música de fundo, "15 Steps", do Radiohead. Confiram:


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CARTA

A princípio, o amor gravita
sem destinatário.
Porém, ao passar do horário,
o amor fica solitário.
Odeio deixá-lo por aí, cabisbaixo,
sem saber aonde ir, mas o amor,
vez ou outra, tem mesmo de partir.
E vez ou outra, quando parte de
qualquer jeito, o amor extravia,
chega com defeito.
Amor não tem rastreamento, é
postado no escuro e tem de vencer
os cães pelo muro.
O que eu posto, vai mesmo
sem selo, porque, para sê-lo,
não pode identificar-se nem
limitar-se.
Meu amor, que pode ser
caneta falhada e folha amassada,
só chega quando não mais
tem paradeiro, e encontra,
desprevenido, seu coração
por primeiro.

AUTORRETRATO


Photobucket

Tanto concreto faz com
que nada seja concreto.
Debaixo do caos que entulha
e que cobre, como se descobre?
Mão tremida sobre o papel,
tentando um autorretrato.
Não se parece. Não
desenho meu boato.
Impossível é se
fazer como se é.
Quem sou?
A soma de todos os meus
tempos ou subtração do
passado com resultado
presente?

sábado, 9 de outubro de 2010

POESIA

Poesia só se acha quando
a gente se perde.
E a vida inerte, tudo contra,
é aí que a poesia se encontra.
Poesia é o grito constante
que eu contenho. Cada
poema é um pouco que se grita,
e o alívio no cenho.

LISTA

Comprei um cachorro. Mentira.
É que minha cabeça vira lata
pra reciclar o tempo.
Hoje saio com a namorada. Mentira.
É que quando lhe falta uma parte,
programa a dois é matemática exata.
Encontrei meu caminho. Mentira.
É que quando eu rio, apenas não quero
dizer que o trecho é obra constante.
O fim é mentira, e nem raio x
diz o que me faz feliz.
E não me venha com Pão de Açúcar,
porque a vida não é doce.

FILME

Fico lendo os créditos,
esperando the end até
que algo comece.
Transformo os protagonistas
em cenário e trago os
figurantes pro primeiro plano.
Quando todos nós somos um
poço de diversidade, alguns
de nós temos de conviver
para sempre com a superfície.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TÉDIO

Remédio para o tédio, quem tem?
Remédio para o tédio, só um trem,
partindo-me ao meio, uma vida sem
freio.
Remédio para o tédio, você dizendo
que é recreio.
Os dias andam feios, os problemas
cobrem tudo. Descobri que o tédio
é tão tédio, porque ele anda
sempre mudo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SAL

Se eu chorar por dentro,
de gota em gota, quanto eu aumento?
Se eu chorar por fora, para que
isso percebam, quanto demora?
E cada lágrima, o que conta de nós?
Se escorre pelo rosto, que estamos sós?
Se a mim mesmo eu pertenço, porque
das tuas mãos quero um lenço?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

EAÍ


E aí você está sentado, sozinho na mesa, esperando sua pizza ficar pronta. Já devia ter chegado. E aí o garçom liga o televisor para fazer o tempo não parecer tão lerdo. Ele sintoniza no Faustão. É o sinal do domingo. É domingo. É apocalipse. Começo e fim dos tempos. Começo da semana e fim da vida. Um suicídio agraciado com segundas, terças e infinitas outras chances.

E aí você imagina o Faustão babando borbulhosa espuma branca seguida de gritos desesperados da plateia. E aí é só o se vira nos trinta. E aí você percebe que, talvez, não consiga se virar, mesmo quando tiver 30. E aí tem um casalzinho do lado que, nem ao menos se dá conta dos 30 minutos de atraso da pizza. E aí que eles riem e ambos usam aparelhos dentários e têm espinhas. E aí ele é intumescido de tanto lanchar anabolizantes, do tipo que parece um baiacu lutando pela sobrevivência. E aí que ela tem um decote, uma calça Gang e uma pequena bolsa capaz de remeter qualquer um à genitália feminina. O carro dele é o pau, enorme, reluzente, robusto, quatro por quatro, que aguenta qualquer tranco. A bolsa dela é a boceta, feminina, delicada, lacrada, portátil, cheirosa, virgem. O pau dele é atrofiado e não aguenta o tranco. A boceta dela é quatro por quatro, enorme e, lá cabe um carro.

E aí você olha para o lado. Amigos felizes, descontraídos e inquietos falam sobre cachaça, raparigas e veados, porque é engraçado. Eles mexem os braços habilmente, como um mágico treinado para lhe desviar a atenção, mas seu olhar é sagaz e você consegue enxergar o que há por trás. E aí seus olhos vidram na espuminha branca que se forma na boca do mais tagarela, sustentado por rapariga-cachaça-veado, um neologismo que não precisa ser explicado. E aí aquela espuminha é tão branca e tão viva e tão borbulhante que, por um instante, você se lembra do Faustão espumando.

E aí que a juventude é promissora. E você, tão bom, tão crítico, observador e sensato ficou para trás. É só um pensamento que ocorre, quando a hipnose por espuma branca é interrompida pelos passos encantadores de uma moça com a capacidade telepática de fazer algo dentro das suas calças erguer-se e, de esponja, transformar-se em adamantium.

E aí não é para o teu bico, porque ela já tem um. E aí você tem a certeza de querer ser um avestruz e enfiar a cabeça no buraco quando ela cumprimenta primeiro o carro e a bolsa e, logo depois, o Aurélio rapariga-cachaça-veado. E aí, meu deus, alguém ali quer ser advogado, porque o pau aumenta mais do que com alargadores vendidos na internet. E aí, depois de “nóis faz” e “nóis fumo”, interessei-me pelos serviços. Quero defender-me deles mesmos.

E aí é bom morar em cidade pequena, porque todo mundo se conhece; porque todo conhecimento do mundo se desconhece; porque é pacato; porque um carrapato sorvendo forte um cão é a nova espuma branca da nação.

E aí, passou a fome. Você vai embora sem dar satisfações, porque, provavelmente, a pizza já estava sendo embalada. Mas, alguém de boca espumante, devorará aquelas dez fatias de calabresa e frango com Catupiry.

E aí você caminha e observa todos tão risonhos e acomodados em seus bancos de madeira que nem parece que amanhã será segunda-feira. Mas a segunda chega, e as conversas desgastadas por bocas espumantes e salivares também. As pessoas estão todas empolgadas, atarefadas e engajadas em viver uma vida que, de longe, já lhe deprime.

E aí, eis que surge um banco acomodador bem na sua frente. Sentar é a única tentativa de assentar suas ideias viajantes de um cosmo cinzento. Muito bem, sentando, indago-me, do domingo, só Faustão? Da pizza, só gordura? Da boca, só espuma? E aí?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Brejeira


Você tem cheiro de perfume vencido.
Você tem cheiro de maquiagem vencida.
E você usa umas roupas meio de velha,
mas há pouco iniciou a descoberta da
vida, ainda cheia de viço, inalando o
ar da mocidade.
Vivemos juntos toda essa despreocupação.
Não pensamos em nada, a não ser café,
cobertor, luar, estampas floridas, papéis.
Nossa mesma idade, nosso suor a evaporar,
nossos buços de paladar quase frutífero.
Morangos de uma beleza chamada juventude.
Somos pássaros enquanto nossos pais
estão na sala, e podemos brincar de médico
ou de jogo da velha.
Nos casaremos, teremos três filhos e você
continuará sendo uma caipira intelectual,
porque eu sou o escritor.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

AQUELA GAROTA


Aquela garota obstinada, que não
lê Capricho, pois prefere Hqs.
Aquela garota que nunca subiu no
salto alto porque pode correr muito
bem de tênis.
Aquela garota do esmalte descascado,
porque ninguém é perfeito.
Aquela garota que valoriza um
bom gramado, porque os
outros só parecem ruminantes.
Aquela garota que não se deixa levar,
que não se deixa vender, porque
é caixa registradora.
Registra cada momento de todos
à sua volta com seus binóculos
invisíveis.
Aquela garota que vê mais do que
fala, porque sabe que eles são
incorrigíveis.
Aquela garota que gosta de tesoura,
cartolina, caneta e suor, porque
reconhece o que é maior.
Aquela discrição, aquela leveza,
aquela personalidade, aquela
singularidade, aquela paralisia.
Ela, só aquém de quem idealiza.

sábado, 21 de agosto de 2010

Profundidade


As pessoas me desorganizam
mais do que eu posso me organizar.
E, apesar de sermos bípedes, não
caminhamos juntos.
Cada vez menos eu vejo semelhança
entre meus semelhantes.
Não enxergo asas e nem quem
queira voar.
Não enxergo ideias, pensamentos
e reflexões aeroplanas.
Ninguém mais pé no chão.
Todos na lama.
Ninguém mais cabeça nas nuvens.
Todos despencando delas.
Quando meus olhos insistem,
só querem de volta alguém
para sonhar junto. Alguém que
veja uma coerente semelhança
não resumida à superfície.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A VIDA PARA UMA BARATA É CARA


Às vezes a gente assiste nos programas de TV quadros que mostram exemplos de superação. Ora é o paratleta sem pernas e braços que, mesmo assim, disputa o salto com vara, ora é a garota de 15 anos sobrevivente de uma leucemia, um atropelamento de caminhão e um tiro de fuzil AR-15. O que ninguém vê são baratas ilustrando quadros desse tipo. Porém, são elas o exemplo perfeito do que é espírito de sobrevivência. Afinal, você nunca verá um ser humano rastejando por aí com seu intestino do lado de fora nem vivendo por uma semana após ser decapitado – e quando acontece isso com a dona barata, ela morre de sede, mas é porque ainda não descobriu o canudinho.

Elas não mudaram muito sua aparência em milhões de anos. Enquanto os dinossauros tomavam porrada de asteroides na cabeça, as baratas desfrutavam de sombra e água fresca, vendo tudo acontecer como num grande espetáculo pirotécnico.

Esses insetos, alvos do mais profundo asco dos seres humanos - principalmente por parte das mulheres - são extremamente ousados e fazem uso até de psicologia inversa para confundir seus algozes. Todo ser, ao sentir-se acuado, corre, corre o mais rápido e para mais longe que puder do perigo. As baratas, filhas da puta que são, investem contra você, vão direto na sua direção, acuam seus pés, enquanto se segura o chinelo com a mão.

Baratas já foram estrelas de filmes de terror, de comédia e ganham cada vez mais espaço no coração e nas vulvas das raquíticas atrizes pornôs nipônicas. Elas estão por todos os lugares, por todos os espaços, frestas, buraquinhos e vãos. Elas são capazes de digerir celulose, de abocanhar seus livros e suas memórias. Não importa o quão sujo, o quão limpo, o quão pobre, o quão rico você seja, sempre haverá uma barata na espreita.

Talvez a insistência das baratas em se proliferar e continuar vivas – o que nos tira do sério -, seja a lição que faltava para aquelas pessoas não mais capazes de se consternar com exemplos humanos. Tenha a barata como referencial. Cada obstáculo percorrido é um tubo de Baygon vencido.

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